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Estou ansioso ou meu trabalho está me fazendo mal?

  • Foto do escritor: Bruna Fernandes
    Bruna Fernandes
  • 29 de ago.
  • 7 min de leitura

Como identificar riscos psicossociais e regular suas emoções


Você já terminou o expediente, fechou o computador e percebeu que sua cabeça continuava trabalhando?

Ou talvez tenha começado a sentir ansiedade antes mesmo de abrir o notebook.


A reunião ainda nem aconteceu, mas você já está antecipando tudo o que pode dar errado. O domingo começa a ter gosto na segunda-feira. Uma mensagem do gestor faz seu coração acelerar. E, aos poucos, você começa a se perguntar:


"Será que eu estou ansioso demais ou existe alguma coisa no meu trabalho que realmente está me fazendo mal?"


Essa é uma pergunta importante porque nem todo estresse significa que existe um transtorno ou que seu trabalho é necessariamente prejudicial.

Ao mesmo tempo, também não devemos transformar todo sofrimento relacionado ao trabalho em um problema individual.


A Organização Mundial da Saúde reconhece que o trabalho pode ser um fator protetivo para a saúde mental. Um trabalho adequado pode oferecer renda, propósito, rotina, relações positivas, pertencimento e sensação de realização.


Mas as condições de trabalho também podem aumentar os riscos para a saúde mental. Entre os fatores reconhecidos estão excesso de demandas, baixa autonomia, insegurança, jornadas longas, falta de suporte e ambientes de trabalho inadequados.


Por isso, talvez uma pergunta mais útil do que simplesmente "por que estou ansioso?" seja:

Que características do meu trabalho estão contribuindo para a minha resposta de estresse?



1. Estresse, ansiedade e contexto de trabalho

Sentir estresse diante de uma situação difícil é uma resposta humana. Uma apresentação importante, uma mudança de função, uma entrevista ou um período excepcionalmente intenso podem aumentar temporariamente nossa ativação. O problema começa quando esse estado de alerta deixa de ser uma resposta pontual e passa a se tornar o funcionamento habitual.


Você pode perceber isso quando:

  • acorda já pensando no trabalho;

  • tem dificuldade para se desconectar depois do expediente;

  • passa boa parte do domingo antecipando a segunda-feira;

  • sente que nunca consegue fazer o suficiente;

  • começa a evitar reuniões ou situações profissionais;

  • tem alterações persistentes no sono;

  • percebe irritabilidade ou dificuldade de concentração;

  • sente ansiedade mesmo quando não existe uma demanda imediata.


Esses sinais não permitem, sozinhos, concluir que existe um transtorno de ansiedade. Mas podem ser um convite para olhar com mais atenção para o que está acontecendo.

E olhar para o contexto é importante.


A própria OMS diferencia fatores individuais de fatores relacionados à organização do trabalho. Como o trabalho é estruturado — incluindo demandas, autonomia, relações, horários e suporte — pode contribuir para o estresse e para outros problemas de saúde mental.



2. A NR-1 e uma nova forma de olhar para o trabalho

Desde 26 de maio de 2026, o novo texto da NR-1 passou a exigir que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) inclua os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. O Ministério do Trabalho e Emprego disponibilizou um Manual de Interpretação e Aplicação com uma ferramenta de Perguntas e Respostas para apoiar sua implementação.


A Fundacentro também publicou diretrizes específicas para a aplicação da NR-1, destacando a necessidade de analisar a organização e a gestão do trabalho e de considerar a participação efetiva dos trabalhadores nessa avaliação.


Essa mudança é importante porque:

Risco psicossocial não significa simplesmente "uma pessoa ansiosa".


Estamos falando também de características do trabalho e da forma como ele é organizado.

Podemos estar falando, por exemplo, de:

  • excesso de demandas;

  • ritmo de trabalho intenso;

  • baixa autonomia;

  • falta de suporte;

  • insegurança;

  • relações deterioradas;

  • assédio;

  • conflitos éticos;

  • falta de clareza sobre papéis e prioridades;

  • jornadas inadequadas.

Isso não significa que toda ansiedade seja causada pelo trabalho.

Significa que, quando estamos tentando compreender o sofrimento de uma pessoa, o indivíduo e o contexto precisam fazer parte da mesma conversa.



3. Mas e eu? Meu trabalho ou minha ansiedade?

Uma maneira de começar essa investigação é observar o padrão.

Não para fazer um diagnóstico sozinho, mas para transformar uma sensação difusa em informação.


Faça este exercício durante 7 dias

Ao final de cada dia, dê uma nota de 0 a 10 para cada dimensão.


1. Ansiedade

Quanto de ansiedade senti hoje?

0 = nenhuma ansiedade 10 = ansiedade muito intensa

2. Carga

Quanto minha demanda de trabalho foi excessiva hoje?

0 = totalmente administrável 10 = impossível de administrar

3. Autonomia

Quanto controle tive sobre como realizar meu trabalho?

0 = praticamente nenhum controle 10 = muito controle

4. Suporte

Quanto apoio tive das pessoas ao meu redor?

0 = nenhum apoio10 = muito apoio

5. Recuperação

Consegui realmente desligar do trabalho?

0 = não consegui me desligar10 = consegui me recuperar completamente

6. Segurança

Me senti seguro para expressar dúvidas, discordar ou pedir ajuda?

0 = nada seguro10 = muito seguro

Depois de uma semana, não olhe apenas para sua média.

Procure padrões.


Pergunte-se:

Quando minha ansiedade aumenta?


E depois:

O que estava acontecendo ao meu redor quando ela aumentou?


Talvez você descubra que sua ansiedade aumenta especialmente quando a carga de trabalho aumenta.

Ou quando recebe demandas sem prioridade clara.

Ou quando precisa lidar com determinada liderança.

Ou quando não sabe o que vai acontecer com seu emprego.

Ou talvez perceba que a ansiedade aparece em diferentes áreas da vida, independentemente do trabalho.

Essa informação não resolve tudo.

Mas pode ajudar a formular uma pergunta melhor.



4. O que posso fazer quando a ansiedade aparece?

Antes de tomar uma decisão importante no auge da ansiedade, pode ser útil primeiro recuperar um pouco de espaço entre sentir e agir.

A regulação emocional não significa eliminar emoções desagradáveis.

Ela pode nos ajudar a reduzir a intensidade da resposta e recuperar capacidade de escolha.

Uma sequência simples é:


PAUSE

P — Perceba

Pergunte:

"O que estou sentindo agora?"

Tente nomear a emoção sem julgá-la.

"Estou ansioso."

"Estou frustrado."

"Estou com medo."

"Estou irritado."

Você não precisa mudar a emoção imediatamente.

Primeiro, perceba.



A — Aterre

Traga sua atenção para o presente.

Observe:

  • 3 coisas que você vê.

  • 2 coisas que você ouve.

  • 1 sensação física que consegue perceber.

  • Você também pode sentir os pés no chão e observar lentamente sua respiração.


O objetivo não é convencer-se de que "não existe perigo".

É ajudar sua atenção a sair, por alguns instantes, do futuro que você está antecipando e voltar para aquilo que está acontecendo agora.


A OMS recomenda estratégias práticas de manejo do estresse e intervenções psicológicas baseadas em evidências como parte do cuidado com a saúde mental.



U — Understand / Entenda

Pergunte:

"O que está acontecendo agora?"

E:

"Estou respondendo a uma ameaça que está acontecendo neste momento ou estou antecipando uma possibilidade?"

Essa distinção pode ser especialmente importante no trabalho.

Uma mensagem do gestor pode significar muitas coisas.

Uma reunião pode ser difícil.

Uma mudança pode realmente representar uma ameaça profissional.

Mas nossa mente também pode preencher lacunas com aquilo que teme que aconteça.

Antes de reagir, tente identificar qual dessas situações está acontecendo.



S — Separe fato de interpretação

Pergunte:

"O que eu sei que aconteceu?"

e depois:

"O que estou interpretando sobre o que aconteceu?"

Por exemplo:

Fato: meu gestor pediu uma reunião amanhã.

Interpretação: ele está insatisfeito com meu trabalho e provavelmente vou perder meu emprego.

Separar as duas coisas não significa ignorar a possibilidade de algo ruim.

Significa não tratar uma interpretação como se ela já fosse um fato.



E — Escolha

Agora pergunte:

"Qual é a próxima ação pequena e coerente com aquilo que eu preciso?"

Talvez seja:

  • fazer uma pausa;

  • reorganizar prioridades;

  • conversar com seu gestor;

  • pedir ajuda;

  • estabelecer um limite;

  • buscar informações antes de tomar uma decisão;

  • procurar apoio profissional.


A reavaliação cognitiva — trabalhar ativamente a interpretação de uma situação — é uma das estratégias estudadas para regulação emocional. Uma revisão sistemática de intervenções breves encontrou evidências de redução da ansiedade de estado em intervenções cognitivas, embora os resultados variem conforme a técnica e o contexto.



5. E se o problema for realmente o trabalho?

Essa talvez seja a parte mais importante.

Regulação emocional não significa aprender a tolerar qualquer ambiente de trabalho.

Técnicas psicológicas podem ajudar você a lidar melhor com emoções difíceis, recuperar flexibilidade e tomar decisões com mais clareza.


Mas elas não substituem mudanças necessárias nas condições de trabalho.


Se existe excesso persistente de demandas, falta de autonomia, assédio, insegurança, ausência de suporte ou outros riscos psicossociais, talvez a pergunta não seja apenas:

"Como eu posso lidar melhor com isso?"


Também precisamos perguntar:

"O que precisa mudar nessa situação?"


A própria OMS recomenda que a prevenção dos riscos psicossociais inclua intervenções organizacionais, como mudanças na carga de trabalho, horários, comunicação e trabalho em equipe, além de intervenções individuais.

Isso nos leva de volta à pergunta inicial:


Estou ansioso ou meu trabalho está me fazendo mal?

Talvez nem sempre seja uma coisa ou outra.

Às vezes, existem fatores individuais que precisamos compreender e desenvolver.

E, ao mesmo tempo, existem condições de trabalho que precisam ser questionadas.

Cuidar da saúde mental no trabalho começa quando conseguimos olhar para os dois lados.



Uma última reflexão

Você não precisa esperar chegar ao limite para começar a prestar atenção.

Talvez a pergunta mais útil não seja:

"Eu estou dando conta?"

Mas:

"A forma como estou trabalhando hoje é compatível com a vida que quero construir?"

Se a resposta começar a ser "não", isso não significa necessariamente que você precisa pedir demissão amanhã.

Pode significar que chegou o momento de olhar com mais cuidado para seus limites, seus valores, suas necessidades e para o contexto em que está inserido.

E, se o sofrimento estiver sendo intenso, persistente ou interferindo significativamente na sua vida, procurar acompanhamento psicológico pode ser um passo importante.



Fontes e para aprofundar


 
 
 

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Bruna Fernandes Ferreira

Psicóloga Clínica

CRP 06/139035

+55 (11) 99108-6207 (Whatsapp)

​brunafernandes.psicologa (Instagram)

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